Ser negro é...
Por Breno da Conceição Neto
A Consciência Negra não apenas uma data nem se limita ao dia 20 de Novembro. Trata-se de um processo histórico e político que emerge da urgência de enaltecer e reconhecer a humanidade dos povos negros, que outrora foram, pelas ações colonizadoras, silenciados, invisibilizados, destituídos do “ser” e convertidos em “não-ser”, produzindo processos contínuos de desumanização.
Nesse contexto, pensar a Consciência Negra pressupõe compreender que os povos negros foram submetidos aos dispositivos da racialidade, os quais criam mecanismos que organizam a sociedade a partir das relações de poder da supremacia branca e da subalternização da população negra (Carneiro, 2023). Tais mecanismos promovem o silenciamento, a anulação e a hierarquização racial que perpassam não apenas o corpo físico, mas também o campo epistêmico.
É desse contexto que emerge o conceito, definido por Sueli Carneiro (2023), de epistemicídio, isto é, a destruição e a desqualificação das produções de conhecimentos oriundas de povos que foram considerados pelos exploradores, como “não-ser”, seres “selvagens”, inferiores e destituídos de capacidades cognitivas para pensar e produzir saberes.
Com isso, ao negar o pensamento de matriz africana, a modernidade estabeleceu uma “verdade” que normaliza a branquitude como racionalidade e universalidade, negando à negritude o seu lugar enquanto um ser.
Esse acordo silencioso, o pacto da branquitude, opera mantendo privilégios raciais historicamente construídos. E de modo sutil e disseminado, naturaliza a desigualdade racial, obstrui o acesso de pessoas negras a espaços de poder e legitima as ações que consolidam a centralidade da branquitude como padrão social. Quando a sociedade exalta a “ democracia racial”, estão de fato, mascarando esse pacto que, se maneira sutil ou notória, assegura a continuidade da ordem racial desigual.
Desse modo, a consciência negra também representa a cisão desse pacto, uma vez que exige denunciar os privilégios, criticar o epistemicídio e requerer espaços nos quais a produção do conhecimento e a ancestralidade negra sejam reconhecidas como legítimas
Portanto, ao articular Consciência Negra, epistemicídio e o pacto da branquitude, mostra-nos que ser negro no Brasil não é apenas um indicador fenotípico, mas um ato político e de resistência permeado por ancestralidade, memória, enfrentamentos, resistência e reconhecimento da identidade.
A Consciência Negra convida-nos a reconhecer a intelectualidade negra – silenciada por uma história narrada pelos “vencedores”, marginalizada pelas instituições e reprimida pelo pacto da branquitude – possuiu raízes profundas.
Referências
Carneiro S. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. São Paulo: Cia das Letras; 2023.
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