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Os verdadeiros "parceiros" defendem uma escola pública, gratuita e de qualidade: manifesto pela educação no Paraná

25 de nov. de 2025
3 min de leitura

Por Jeani Delgado Paschoal Moura

Uma professora que transita entre escolas e universidade - e que acredita que a educação só cumpre seu papel social quando permanece pública, gratuita e de qualidade

Escrevo esta carta, a pedido de uma orientanda do doutorado, tomando um café no aconchego da minha casa, enquanto tento digerir a enxurrada de notícias sobre a privatização das escolas estaduais do Paraná. É curioso perceber que, mesmo depois de tantos anos, a escola continua sendo o lugar para onde retorno - talvez porque, no fundo, eu nunca tenha realmente saído dela.

Comecei minha carreira em escolas, por quase uma década. Depois fui para a universidade, mas sem nunca descolar da educação básica - afinal, sou professora de Geografia que forma professores de Geografia. E isso muda tudo. Porque quando formamos quem vai estar amanhã na sala de aula, estamos com um pé firme na universidade e o outro enraizado na escola. É uma docência que vive aqui e acolá, atravessando mundos que não deveriam ser separados.

E é justamente dessa minha posição - professora, formadora, pesquisadora, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UEL - que aceito o convite para escrever. Porque carrego uma tripla responsabilidade: cuidar da pós, que cuida da graduação, que, de mãos dadas, olha para a escola e tenta ser sua guardiã. E guardiã não é quem vigia de longe; é quem se envolve, se preocupa, se compromete com o que está vivo.

E não sou só eu. A própria CAPES tem insistido que a pós-graduação não pode ser uma torre isolada: ela é responsável pela qualidade da graduação, e ambas têm compromisso direto com a escola pública. Educação é um tecido indivisível - quando um fio se rompe, o tecido inteiro se desfaz. Quando uma escola é precarizada, a formação do professor também se enfraquece. Quando a graduação perde condições, a pós se esvazia de sentido. Uma depende da outra para existir e reexistir.

Por isso, quando leio que escolas estão sendo entregues aos chamados Parceiros da Escola, projeto do governo Ratinho Jr. que submete a gestão educacional à lógica empresarial, me pergunto: o que acontece com o tecido da educação quando um de seus fios é arrancado? O que acontece com o futuro dos nossos estudantes quando a própria escola perde sua autonomia e seu caráter público?

Vejo o café esfriando na mesa e penso nos meus estudantes da licenciatura, nos estagiários que chegam com brilho no olhar, nos professores experientes que voltam para a pós buscando sentido, força, reinvenção. Penso em como a escola pública é o ponto de partida e de retorno de todos nós. E por isso dói tanto vê-la ser tratada como negócio.

Privatizar a gestão das escolas não é modernizar - é renunciar ao compromisso histórico que temos com as comunidades. É transferir para empresas uma responsabilidade que é do Estado e, por consequência, nossa. É desconectar a escola de seus vínculos, de suas memórias, de sua estabilidade. É transformar trabalhadores em peças substituíveis, estudantes em indicadores, famílias em consumidoras.

Dói porque conhecemos a escola por dentro. Sabemos das lutas, das resistências e dos laços que só existem porque ali ninguém trabalha para dar lucro - trabalha-se para formar pessoas. E isso não tem preço. Aliás, tem preço sim, e não cabe em planilhas.

Talvez seja isso que mais me inquieta: a sensação de que estamos vivendo uma ruptura grave e silenciosa - e que, se não dissermos nada, essa ruptura se normaliza. Fica parecendo que é inevitável, técnica e necessária. Mas não é. Por isso, escrevo esta carta para lembrar que: a universidade não existe sem a escola, a escola não existe sem a comunidade, e a educação pública não sobreviverá sem que a defendamos juntas.

A comunidade acadêmica precisa se posicionar. Os programas de pós e de graduação precisam se aproximar ainda mais das escolas. Os professores precisam discutir esse processo com seus estudantes. As famílias precisam saber o que está acontecendo. Os núcleos sindicais precisam ser fortalecidos. Os gestores precisam ouvir, dialogar e se posicionar. Não há educação pública sem participação pública.

É hora de olhar para a escola não como problema, mas como patrimônio. E patrimônio a gente não vende - a gente cuida. Termino esta carta com a certeza de que silêncio não combina com quem educa. E que, diante do desmonte, nossa tarefa é simples e urgente: erguer a voz.

 

Londrina, 24 de novembro de 2025

 

Jeani Delgado Paschoal Moura

Uma professora que transita entre escolas e universidade - e que acredita que a educação só cumpre seu papel social quando permanece pública, gratuita e de qualidade.

 
 
 

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